Por Michel Oliveira
Jornalista, escritor e doutor em Comunicação e Informação
Elba Ramalho apareceu nas manchetes, colunas de fofoca e nas redes sociais. Ou melhor: uma nova versão dela. Aos 74 anos, a cantora surgiu com o rosto tão esticado que parecia moldado à mão, como uma massa de biscuit recém-saída da modelagem. Os internautas reagiram entre o espanto e a ironia, porque há algo de profundamente perturbador em um rosto que já atravessou sete décadas e não tem uma linha para contar a história.
Mas Elba não está sozinha nessa estética “ageless”. O termo, em inglês, significa literalmente “sem idade”. É o nome bonito dado à obsessão por parecer eternamente jovem, uma fantasia vendida em frascos, seringas e clínicas dermatológicas. O “efeito ageless” promete juventude eterna e entrega expressões de cera. Donatella Versace, aos 70, é praticamente um ícone do silicone elevado à categoria de identidade visual. Kris Jenner, com seus 69 anos, também parece disputar com o tempo um campeonato de retoques. Todas vendem a mesma ilusão: a de que é possível envelhecer sem envelhecer.
E aqui está o truque: tudo isso vem embrulhado na palavra mais hipócrita do mercado da estética, “natural”. Harmonização natural. Preenchimento natural. Rejuvenescimento natural. Natural? Onde? Nas salas de retoque camufladas de sala médica? O que há de natural em um rosto que sobreviveu a sete décadas e não carrega uma ruga sequer de lembrança?
Não estamos falando de autocuidado, de querer uma pele boa, dormir bem ou usar protetor solar. Mas de uma não aceitação, uma recusa da velhice. De uma mulher de 70 anos que não pode ter rugas porque o mundo, aparentemente, ainda acha que só há beleza no novo. Envelhecer, afinal, é o lembrete incômodo de que somos finitos, e ninguém quer olhar para a própria finitude no espelho.
Mas o “efeito ageless” não é um capricho individual: é um produto de mercado. A indústria vende juventude em frascos, seringas e promessas. E não são apenas as mulheres mais velhas que caem nessa armadilha. Veja Anitta, jovem, bem-sucedida, sucesso internacional, mas que, ainda assim, se sentiu compelida a “refazer o rosto”. Se até quem tem trinta e poucos já precisa corrigir o que o tempo ainda nem tocou, o que sobra para o resto de nós, cansados da rotina diária?
As mulheres continuam sendo as principais vítimas desse ideal impossível, embalado como autoestima. É uma artificialidade absurda, disfarçada de empoderamento. O corpo virou um produto, uma obra plástica em constante reforma.
A pesquisadora e escritora Paula Sibilia, autora de ‘O Homem Pós-orgânico’, explica que vivemos um tempo em que o corpo deixou de ser destino e passou a ser projeto. A carne se tornou uma superfície moldável, uma tela que pode ser esculpida, atualizada e corrigida, como um software em eterna versão beta. O corpo, que antes testemunhava o tempo, agora precisa negá-lo. A velhice virou falha de sistema, e cada ruga é tratada como erro a ser deletado.
Essa lógica transforma a existência em uma busca interminável por manutenção, um estado de insatisfação permanente travestido de autocuidado. E o pior: esse ideal, como um produto capitalista, cria um abismo entre quem pode pagar por essa juventude de laboratório e quem envelhece no espelho comum da realidade.
A geração dos filtros digitais tenta acompanhar o padrão das imagens editadas e o resultado é um colapso da percepção. As pessoas já não sabem mais o que é um rosto real. Hoje, até a velhice precisa ser performada: saudável, sorridente e, claro, rejuvenescida, “natural”.
Os procedimentos invasivos são apresentados como simples cuidados. É o marketing da insatisfação, ensinando que a gente nunca está bom o bastante. Especialmente se for mulher e, quanto mais velha – esse termo que não pode ser mais dito –, pior.
Envelhecer se tornou um ato quase subversivo. O corpo insiste em mudar, cair, “espelancar”, e talvez seja nessa imperfeição que ainda exista alguma verdade. Antes de morrer, talvez seja melhor não ter o rosto paralisado por botox ou esticado ao limite da pele para poder rir com vontade.
Este texto não reflete, necessariamente, a linha editorial do Cordel Notícias.
No fundo, a indústria da estética do antienvelhecimento se apoia em um dos pilares existenciais mais latentes do ser humano, que é a iminência da morte. O argumento de que é por mera questão estética não me convence, pois, raramente tais procedimentos são satisfatórios. O artigo traz uma excelente reflexão!