Por Michel Oliveira
Jornalista, escritor e doutor em Comunicação e Informação
A divulgação na imprensa tem slogan de impacto: megaoperação, uma boa justificativa de marketing para a chacina divulgada como a mais letal do Rio de Janeiro. A ação ocorreu no Complexo da Penha, na Zona Norte da capital fluminense, envolvendo mais de mil agentes das polícias Civil, Militar e Federal. Até agora, são mais de 120 mortos, entre eles quatro policiais.
Me pergunto qual briga de machos desencadeou a “megaoperação”. Óbvio que não foi para colocar ordem, uma vez que as forças de segurança são parte fundamental do crime organizado. Mas uma retaliação a quê? O que, nos bastidores dos homens armados, provocou uma reação dessa proporção? Quem está querendo mostrar tanto poder?
São muitas perguntas, nenhuma resposta suficiente.
Este texto é apenas um fluxo de consciência [ou seria meu inconsciente tentando encontrar uma narrativa plausível?].
Os discursos são muitos, todos eles cooptados pela polarização política, que transforma uma situação tão complexa em meia dúzia de frases clichês. “Esquerda” e “direita” repetindo as mesmas supostas análises. De um lado, falam da falência do Estado e da Segurança Pública. Do outro, comemoram a limpeza social, afinal, “bandido bom é bandido morto”.
Nas redes sociais, a simulada comoção de sempre. Um turbilhão de bobagens ditas e eu não consigo dizer ou sequer alinhar um pensamento que considere mais coerente. Tudo isso porque está além da minha imaginação dar conta de 120 corpos. Talvez meu déficit matemático me impeça de ter uma dimensão real do ocorrido. A cena de mais de 60 corpos enfileirados em praça pública extrapola qualquer possibilidade racional, mesmo vivendo no país do absurdo que é o Brasil.

A chacina virou um megaevento. A tragédia se converte em enquadramento, e o horror encontra sua estética própria. Há drones sobrevoando corpos, celulares em riste capturando a morte em alta definição. Tudo tão absurdo que parece natural caminhar entre os mortos, como quem passeia por uma feira.
Não consigo fazer análises, tomar partido ou firmar uma opinião. Diante de tanto sangue, tantos corpos, tantas imagens que multiplicam e repetem a morte ao quase infinito, me faltam palavras. Eu, supostamente estudado, que me acho minimamente instruído e, como jornalista e escritor, afeito às palavras, peço desculpas, pois me falta algo de consistente para dizer.
Ao pensar, ouvir ou ver qualquer relato ou registro da chacina, tenho apenas uma angustiante náusea. Não consigo criar nenhuma narrativa linear, o pensamento gira em círculos e chega a lugar nenhum. Tenho apenas uma certeza: nada vai melhorar na segurança, pois o que virá depois não é paz, mas o vazio do terror. Tampouco haverá uma reestruturação que garanta uma nova ordem social, uma vez que não estamos apenas diante da falência do Estado e das forças policiais e de segurança: é um profundo estado de falência humana.
As frases feitas, as análises clichês são ainda piores, porque elas naturalizam, amenizam, querem justificar o injustificável. Ainda mais chocante do que as mortes é saber que parte considerável da população tem um prazer sádico nelas. Minha vontade é gritar: calem a boca! Depois ficar em profundo silêncio, porque talvez calar seja a única reação possível para não piorar tudo.
Este texto não reflete, necessariamente, a linha editorial do Cordel Notícias.