Por Michel Oliveira
Jornalista, escritor e doutor em Comunicação e Informação
Um vídeo de coelhos pulando em uma cama elástica circulou amplamente nas redes sociais. Muita gente compartilhou rindo, achando fofo, surpreendente, até perceber pelos comentários que a cena nunca existiu de verdade: era tudo criação da inteligência artificial (IA). Esse exemplo simples, aparentemente inofensivo, expõem como o nosso olhar já não distingue com segurança o que é registro e o que é fabricação.
Durante muito tempo, quem caía em montagens era associado a falta de informação ou pouca familiaridade tecnológica. As manipulações eram evidentes, artificiais, fáceis de desmontar. Agora, até pessoas especializadas em comunicação, como jornalistas experientes e profissionais de audiovisual, têm dificuldade em identificar o que é real quando se deparam com conteúdos gerados por IA. A sofisticação visual, a fluidez do movimento e o nível de detalhe são tamanhos que a mentira se veste com a aparência sedutora da verdade.
O incômodo maior não está apenas na técnica, mas na experiência subjetiva de assistir a algo e imediatamente desconfiar. É cansativo olhar vídeos e sentir que precisamos fazer uma perícia não solicitada, como se cada cena fosse um pequeno teste de detecção de fraude. Quando percebemos que um vídeo é falso, a sensação não é só de erro, mas de engano. A graça é sequestrada. Não há espanto, não há admiração, não há aquele gosto da realidade surpreendente, do inesperado que acontece no cotidiano que acompanhava o registro audiovisual.
A fotografia e o vídeo sempre carregaram algum grau de encenação, mas também evidenciavam a promessa do acontecido. Eram a prova de que, em algum momento, aquilo existiu diante de uma lente. Essa relação está sendo corroída pelo realismo ilusório da IA. A fronteira entre o evento e a simulação desmancha como se nunca tivesse existido, e a própria noção de testemunho se fragiliza.
Política da imagem
Esse fenômeno ganha um peso ainda maior quando pensamos no uso político das imagens. As deepfakes, que são vídeos manipulados digitalmente para fazer alguém parecer dizer ou fazer algo que nunca ocorreu, já estão ao alcance de qualquer pessoa com ferramentas simples. Se um vídeo de coelhos já confunde milhões de pessoas, imagine o potencial de dano quando o objeto da manipulação é um candidato, uma autoridade pública ou uma liderança social em pleno período eleitoral.
O próximo ano será de eleição no Brasil, teremos pela frente uma disputa que será travada também no campo da credibilidade das imagens. A dúvida permanente pode ser explorada tanto para enganar quanto para desacreditar o verdadeiro. Um vídeo falso pode incendiar debates, mas um vídeo verdadeiro também pode ser rotulado como falso por quem quiser se defender. A realidade se torna mais vulnerável quando o simulacro é quase perfeito.
No extremo desse realismo simulado, o maior risco é a erosão da confiança e a instalação de uma fadiga permanente. Se a IA nos projeta um mundo em que a promessa do acontecido se torna infinitamente falsificável, pagamos o preço da suspeita como estado inicial. Surge, então, uma espécie de tédio contemporâneo: o cansaço de precisar duvidar de tudo, de não poder mais se maravilhar ou se indignar diante de um registro sem antes realizar uma auditoria mental.
Em um ambiente político já polarizado, essa fragilidade do testemunho funciona como o golpe final. A perfeição do simulacro não apenas nos engana, mas também oferece o álibi ideal para qualquer defesa: se tudo pode ser falso, nada permanece incontestável, nem mesmo a verdade. A disputa que se anuncia não será apenas contra a mentira, mas contra o desgaste da própria capacidade de acreditar, talvez tornando a credibilidade o recurso mais escasso e valioso do nosso tempo.